Felipe Dias

OS TRANSTORNOS ALIMENTARES E O RELACIONAMENTO FAMILIAR: UMA REVISÃO DE LITERATURA


Resumo:

Introdução: Os transtornos alimentares (TA) são caracterizados por uma perturbação persistente na alimentação ou no comportamento relacionado à alimentação, constituem patologias graves e complexas, pela própria configuração do quadro clínico e suas consequências. A relação familiar da pessoa com TA surge como questão de suma importância e se torna o ponto de partida para o presente estudo. Objetivo: investigar de que forma a rede familiar influencia seus familiares diagnosticados com TA. Método: Revisão de literatura, realizada nas bases de dados virtuais: BVS Psicologia Brasil, Pepsic, Scielo, Bireme, Index Psi e EBSCO. Uma busca por artigos científicos e livros dos últimos sete anos, utilizando os descritores: Transtornos alimentares; terapia sistêmica; relacionamento familiar; adultos; homem e mulher. Resultado: É necessário compreender que as diversas descrições das relações familiares a partir de pessoas com TA, permitem delimitar diferentes possibilidades de significar o apoio familiar e a participação da família no processo de enfrentamento do paciente frente a esse diagnóstico. Considerações Finais: Na medida em que as dificuldades são compartilhadas, formam-se redes que possibilitam outros caminhos para construir um apoio social fortalecido e novas maneiras de lidar com as adversidades.

Palavras-chave: Transtornos Alimentares, Anorexia, Bulimia, Transtorno de Compulsão Alimentar e Relacionamento Familiar.

EATING DISORDERS AND FAMILY RELATIONSHIPS: A LITERATURE REVIEW

Abstract:

Introduction: Eating disorders (TA) are characterized by a persistent disturbance in feeding or behavior related to eating; they constitute serious and complex pathologies, due to the very configuration of the clinical picture and its consequences. The family relation of the person with TA appears as a matter of paramount importance and becomes the starting point for the present study. Objective: to investigate how the family network influences its family members diagnosed with TA. Method: Literature review, carried out in the virtual databases: BVS Psychology Brazil, Pepsic, Scielo, Bireme, Index Psi and EBSCO. A search for scientific articles and books from the last seven years using the descriptors: Eating Disorders; Systemic therapy; Family relationship; adults; man and woman. Results: It is necessary to understand that the various descriptions of family relationships from people with TA, allow to delimit different possibilities of meaning the family support and the participation of the family in the process of coping the patient with this diagnosis. Final Considerations: As difficulties are shared, networks are formed that provide other avenues for building strengthened social support and new ways of coping with adversity.

Keywords: Eating Disorders, Anorexia, Bulimia, Eating Disorder and Family Relationships.

INTRODUÇÃO

Os transtornos alimentares (TA) constituem patologias graves e complexas, pela própria configuração do quadro clínico e suas consequências. Desta forma o problema relacionado à demanda de adoecimento, que envolve o ciclo familiar em que o indivíduo está inserido, vem aumentando no século XXI. Muitos estudos estão sendo desenvolvidos nesta área, porém estamos próximos de encontrar uma saída para este problema¹. Os TA são determinados pelo DSM-5², por diagnósticos limitados ou específicos, dentre eles estão a anorexia, bulimia e a compulsão alimentar que permeiam o cotidiano de indivíduos diagnosticados ao longo do tempo.

A anorexia é caracterizada pelo desejo de emagrecer por meio da perda de peso insignificante. Bulímicos também sentem grande medo de ganhar peso, e frequentemente têm uma visão distorcida do próprio corpo. Já o paciente com compulsão alimentar tem episódios de ingestão excessiva de comida, em intervalos curtos de tempo, seguido de uma sensação de perda de controle sobre o que está comendo¹.

De acordo com o Instituto da Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - IPq/HCFMUSP³, é estimado que, ao longo da vida, no Brasil, entre 0,5 e 4% dos indivíduos terá anorexia, de 1 a 4,2% bulimia e 2,5% transtorno da compulsão alimentar, sendo mais incidentes em adultos, de 18 a 30 anos e do sexo feminino.

Este artigo faz, inicialmente um levantamento da literatura sobre os transtornos alimentares, as relações familiares, bem como conceitos de reações psicológicas frente ao processo de tratamento dos indivíduos diagnosticados, segundo referencial encontrado. Posteriormente descreve-se o método, os resultados, e a discussão sobre os dados coletados.

O objetivo deste estudo foi averiguar a influência da rede familiar nos familiares diagnosticados com TA, investigando as contribuições do campo da Psicologia, direcionado a terapia familiar sistêmica. Além disso, buscou refletir sobre este fenômeno, que é discutido na contemporaneidade, por variados contextos da saúde relacionados à Medicina, Nutrição e Psicologia, entre outros.

Por recursos psicológicos se entende que todas as táticas comportamentais/atitudes que o doente utiliza para enfrentar os problemas para enfrentar o problema: de forma tangível: a percepção corporal ao se olhar no espelho e ver seu corpo. Por outra forma, dentre os elementos intangíveis que ajudam a manejar as diferentes situações da vida, por exemplo: apoio familiar e percepção corporal4.

Além dessas táticas comportamentais os pacientes com TA são produtos de uma complexa inter-relação entre aspectos biológicos, psicológicos e socioculturais, agregados à problemas multifatoriais em suas vidas, ultrapassam a capacidade terapêutica de qualquer um, isoladamente. Daí a importância de uma interação multidisciplinar juntamente com a família5.

O profissional da Psicologia frequentemente lida não apenas com o indivíduo, mas também com sua família. Mesmo quando está lidando apenas com uma pessoa, é impossível a interação não afetar e ser afetada por sua família. Consequentemente, as interações com um indivíduo são vistas como interações indiretas com sua família. O comportamento, de um indivíduo é bastante influenciado pela família e, por sua vez, quaisquer alterações em seu comportamento, invariavelmente afetarão sua família6.

Quer se adote essa perspectiva ou não, é difícil negar que a Psicologia, para ser eficaz, precisa compreender a família. Por esta perspectiva, se acredita que o núcleo familiar deve ser inserido em qualquer proposta terapêutica, pois os familiares podem apresentar uma série de incapacidades que se sedimentam frente ao adoecimento emocional e/ou físico de algum familiar7.

MÉTODO

Este estudo consiste em uma revisão de literatura, onde se buscou averiguar de que forma o relacionamento familiar pode influenciar nos TA de seus portadores. Distinguir as relações, contradições, observar lacunas e incoerências na literatura e ainda apontar sugestões para a resolução de problemas a cerca da temática8.

Para seu desenvolvimento foram realizadas buscas em bases de dados virtuais como BVS Psicologia Brasil, Pepsic, Scielo, Bireme, Index Psi e EBSCO. A seleção dos descritores utilizados no processo de busca de artigos foi realizada mediante consulta aos descritores de assunto em Ciências da Saúde (DECs). Para a seleção dos artigos foram utilizados como descritores: Transtornos Alimentares; Terapia Sistêmica; Relacionamento Familiar; Adultos independente de sexo, escritos em língua portuguesa (nacional), artigos publicados no Brasil.

A metodologia empregada no estudo (Figura 1), mostra os 97 artigos encontrados, selecionados a partir de uma leitura prévia dos resumos levantados, tendo seguido como critérios de inclusão: 1) ano de publicação: entre 2010 e 2017; 2) idioma de publicação: língua portuguesa (nacional); 3) estudos brasileiros; 4) estudos empíricos, revisões ou metanálises e livros que tratassem da terapia sistêmica. Foram excluídas deste estudo as publicações anteriores ao ano de 2010 e aqueles que não utilizam o modelo sistêmico.

Os artigos encontrados foram classificados de acordo com o tipo de pesquisa e descritos quanto a metodologia utilizada, ano e língua de publicação. Sendo excluídos da pesquisa 83 artigos publicações anteriores ao ano de 2010 e que não utilizam o modelo sistêmico.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Na literatura nacional, referente ao período de 2010 a 2017, encontrou-se artigos científicos e livros que abordavam de que forma a rede familiar influencia seus familiares diagnosticados com transtornos alimentares, investigando algumas contribuições do campo da Psicologia. No decorrer serão apresentados os principais resultados a cerca do mesmo.

Do material encontrado utilizaram-se 97 artigos em idioma português (do Brasil), oito (8) livros descritos com a teoria sistêmica identificados na busca, totalizando 105 estudos correspondentes. Destes 97 artigos, 42 não possuíam o texto completo na plataforma de busca, por isso, foram excluídos. Estavam repetidos na listagem gerada pelo site, 17 artigos que foram então removidos para evitar duplicidade na consolidação dos dados. Dos 38 artigos restantes, 24 foram excluídos por se tratar de estudos de reflexão, ensaios de opinião, informes técnicos, não condizentes com a terapia sistêmica familiar.

Os estudos foram classificados em artigos científicos completos da área de Psicologia e os livros de abordagem de terapia sistêmica familiar, publicações de revisão de literatura, pesquisas empíricas, revisões sistemáticas e de métanálise. Já os artigos excluídos foram os estudos que antecediam o ano de 2010, publicações que abordavam a infância, adolescência e idosos, além de estudos que não envolvessem o modelo sistêmico. O fluxo de seleção dos artigos encontra-se descrito na Figura 2.

Os achados desta revisão contribuem para a discussão atual na literatura sobre o status de anorexia nervosa (AN), bulimia nervosa (BN) e transtorno de compulsão alimentar (TCA) enquanto patologias distintas de outros transtornos alimentares, em nível nacional. A prevalência dos TA é determinada por diagnósticos limitados ou específicos, incluídos pela AN, BN e TCA, possuindo sintomas alimentares que podem levar a uma espécie de desconforto clínico significativo, ou à dificuldades da função social. Porém, muitas vezes não atendem aos critérios completos das categorias já mencionadas (SANTOS; VALDANHA, 2013).

O DSM-5², refere que os TA são caracterizados por uma perturbação persistente referente à alimentação ou no comportamento a ela relacionado. Tal fato resulta no consumo ou na absorção alterada de alimentos, comprometendo significativamente a saúde física ou funcionamento psicossocial do doente.

O americano William Gull é considerado um dos descobridores da NA mas, foi no ano de 1817, que o médico inglês descreveu na literatura, o diagnóstico da patologia9. Caracterizada por restrição da ingestão calórica em relação ao exigido, levando a um peso corporal consideravelmente baixo, bem como o medo exagerado de ficar gordo. Pois o indivíduo utiliza de um método que interfere no ganho de peso, desencadeando a perturbação da forma física, influenciando indevidamente o peso corporal na autoavaliação, e não reconhecimento da gravidade do baixo peso corporal atual².

Historicamente, a BN foi descrita na literatura no ano de 1979 por Gerald Russel10. Porém, foi somente a partir do ano de 1980, quando foi descrita no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais III (DSM III) como uma patologia psiquiátrica, que o interesse por descrições cientificas específicas, sobre este transtorno alimentar passou a crescer de forma significativa11.

Clinicamente a BN é caracterizada por episódios repetidos de compulsão alimentar, pois o sujeito passa a ingerir uma quantidade definitivamente superior do que a maioria das pessoas comeriam em um período de tempo semelhante, em circunstâncias parecidas, com sensação de falta de controle, seguidos de comportamentos compensatórios no que se tange ao uso de laxantes, vômito e atividade física de forma excessiva. Assim, percebe que há tentativas de reversão por parte do indivíduo no que se refere à ingestão excessiva de alimentos, bem como a perturbação na percepção da forma física e do peso².

Já o TCA, foi escrito pela primeira vez pelo psiquiatra americano Albert Stunkard, no ano de 1959. Porém, somente em 1994 foi realmente considerado como uma patologia e incluída no DSM-59. No entanto, esse descreve que no TCA ocorrem os mesmos episódios, com a mesma frequência e duração que na AN e na BN, mas os indivíduos geralmente não possuem comportamentos compensatórios regulares para combater o consumo excessivo de alimentos e muitas vezes, apresentam excesso de peso ou obesidade².

De modo geral, a AN, BN e TCA são considerados patologias que permitiram identificar padrões distorcidos de beleza impostos pela sociedade, a qual incentiva dietas rigorosas, excesso de exercícios físicos e o uso impróprio de diuréticos, laxantes e drogas anorexígenas, considerados comportamentos precursores de transtornos do comportamento alimentar¹.

O comportamento alimentar é definido por reações comportamentais ligadas à ação ou a maneira em que o indivíduo se alimenta, denominado como método mais utilizado para interpretar este TA que está inserido na sociedade. Bittencourt e Almeida12, referem que os TA estiveram sempre presentes na sociedade, porém o índice de pessoas acometidas vem crescendo nas últimas décadas.

Se pode observar tal situação, em função de alterações na organização social, nas relações familiares, nos relacionamentos interpessoais e na relação do indivíduo com o seu próprio corpo e com o corpo dos outros. São definidos pela medicina como distúrbios psiquiátricos caracterizados por mudanças do padrão alimentar e por distorções relacionadas aos alimentos e com o peso corporal, resultando em implicações adversas sobre o estado nutricional. Sendo patologias que afetam mais o sexo feminino do que o masculino, gerando prejuízos biológicos, psicológicos, sociais e o aumento da morbidade e mortalidade dos indivíduos13.

A literatura aponta que, no processo de adoecimento do indivíduo com transtorno alimentar, um dos fatores motivadores está diretamente voltado para a inabilidade da família em lidar com o comportamento de seu familiar, necessitando também ela de acolhimento e acompanhamento. Deste modo, a maior evidência levantada pelos estudos realizados é que as relações interpessoais inadequadas podem gerar sobrecarga nos familiares do paciente com os TA14.

Ao definir família, Baptista15, considera que as múltiplas funções reguladoras dos papéis assumidos por seus membros, contradições de seus comportamentos, afetos, tensões, conflitos presentes no ambiente e que simultaneamente contribuem para que esse sistema se mantenha dinâmico e em constante transformação. Cumprindo assim, seu papel social de gerador e transmissor de crenças, valores e tradições culturais.

Minuchin16, caracteriza a família por um sistema aberto, cujos membros se relacionam, criam laços emocionais e compartilham suas histórias e experiências, pois nessa dinâmica relacional, seus integrantes objetivam a estabilidade familiar e convivem com os desafios constantes das mudanças próprias das transações presentes no ciclo vital da família. A falta de interação entre os familiares, de diálogos também aparecem aqui como um fator de risco, pois o que distancia o doente do familiar, pode desencadear a busca predominante do anseio pelas descobertas, por novas sensações e emoções como também os pensamentos negativos e questionamentos que são referidos a padrões distorcidos de beleza impostos pela sociedade. Desta forma, essa falta de proximidade relacional acarretará um problema muito maior e difícil de ser solucionado17.

Em vista deste agravante relacional familiar encontrado na literatura, a família não está preparada para suportar tal grau de desorganização, provocado pelas condições em que o membro com TA se encontra- Todos precisam de tratamento, pois a família adoece junto. E devido a essa necessidade de tratamento, dois artigos trazem a responsabilização de cuidados a famílias atingidas pela consequência do TA, evidenciando a importância de atendimento psicológico a estes familiares, cuidar não apenas do paciente com TA que está adoecido, mas do sistema familiar do qual faz parte. Os artigos destacam a relevância da família ser acolhida e tratada, visando restaurar os vínculos familiares, estabelecer limites fragilizados e reorganizar os papeis familiares 18,19.

Com relação a sobrecarga familiar do paciente com TA, dos 14 artigos encontrados, nove deles não identificaram/evidenciaram diretamente o desgaste familiar após o diagnóstico do paciente com TA e indicadores de risco, os aspectos problemáticos da família nuclear e do relacionamento do paciente com cada parente, como influência. Os artigos também falam de comportamentos, como um método estratégico de intervenção terapêutica da psicologia, pelo fato de estabilizar essas relações estabelecidas do doente com a família, amigos e a comunidade. Estes são fatores determinantes para o desenvolvimento e a manutenção do tratamento dos TA. Os indivíduos diagnosticados com TA evidenciam na literatura ter mais problemas familiares, porém não foram apontados os problemas, nem desgastes especificamente20.

Ante o elencado, a influência de um TA na família acaba afetando toda a integração desse sistema, todos os familiares acabam se envolvendo nesse processo. Para Schmidt5, a família é determinada como uma rede comunicacional de influência recíproca, ou um circuito de retroalimentação, onde o comportamento e o temperamento de cada indivíduo, influenciam e são influenciados, pelos demais, bem como a mudança em um dos membros influenciará todos os outros, nas demais relações estabelecidas entre eles, e no sistema familiar como um todo.

É fundamental a intervenção da família no reconhecimento do TA e na tomada de providências para combatê-lo. Pode-se perceber o delineamento de uma nova maneira de se construir a posição da família na ação de cuidado com o paciente, uma colocação mais participante, confrontando a situação adversa. Também vista como uma forma de clarear a participação ou o papel da família no tratamento deste transtorno, um método de intervenção importante da família neste diagnóstico21.

É importante considerar o que ocorre no sistema familiar e suas variações, para assim, poder identificar a extensão e profundidade do sofrimento da família em seus relacionamentos. Então, os transtornos não devem ser considerados somente como uma semelhança patológica por meio da representação do indivíduo, mas sim, deve ser considerado que muitas vezes, os sintomas provêm de disfunções do sistema familiar, sendo determinados como o sofrimento causado no campo relacional da família e suas manifestações que retroalimentam esse fenômeno22.

Em relação a intervenção terapêutica, os estudos apresentaram que a participação da família no processo de tratamento do paciente diagnosticado com TA é de extrema importância no fortalecimento de vínculos afetivos familiares e na prevenção de recaídas17. No entanto, em um dos estudos a terapia sistêmica familiar demonstrou redução dos sintomas e mais efetividade na intervenção com o doente e os familiares23. A análise do contexto familiar é muito relevante, principalmente para pacientes em situação de risco, sabe-se que as intervenções que visam a melhoras rápidas e pontuais, com foco apenas em aconselhamento nutricional e no uso de medicamentos, muitas vezes não são efetivas, sendo necessária a abordagem de fatores individuais, familiares e sociais, para que tanto a perda ou a restauração do peso, dependendo do tipo de transtorno, sejam alcançadas e mantidas21.

A psicoterapia que evidenciou mais efetividade na AN foi a terapia sistêmica familiar de curta duração, principalmente a abordagem de Maudsley¹. A família desempenha um papel fundamental na reocupação de pacientes com AN, pois a abordagem utilizada na psicoterapia aproxima os familiares da pessoa com AN como parte da solução e não parte da razão do indivíduo que tem esse tipo de TA, trabalhando a compreensão da família de forma ativa, para que eles auxiliem seu familiar a comer de forma mais saudável. A intenção desta intervenção é fortalecer o sentimento dos pacientes para que passem a controlar sua alimentação e ainda ajudar a enfrentar esses desafios21.

Para indivíduos com sintomas de BN e TCA, continua o autor acima citado, que a terapia sistêmica familiar de longa duração pode ser mais eficaz, quando os familiares demonstram claramente o alto nível crítico em relação ao comportamento alimentar dos indivíduos, porém a literatura recomenta por meio das técnicas utilizadas que seja evitada a presença da família nas sessões iniciais, pois traz melhores resultados afetivos no decorrer do tratamento.

De modo geral, foram encontrados resultados que se assemelham aos já reportados na literatura, sugerindo que a AN, BN e o TCA, são fenômenos globais, também observáveis principalmente em toda a América latina24.

Porém, neste estudo pode se constatar que de acordo com o Instituto da Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - IPq/HCFMUSP³, estima-se que ao longo da vida, entre 0,5 e 4% dos indivíduos terá anorexia, de 1 a 4,2% bulimia e 2,5% transtorno da compulsão alimentar especificamente no Brasil, com maior prevalência em mulheres adultas, de 18 a 30 anos de idade, abrangendo os quadros mais leves, que não preenchem todos os critérios para a doença, mas que marcam uma profunda insatisfação com o corpo, busca incessante de dietas e cirurgias plásticas, eventuais usos de recursos extremos para emagrecer (vomitar, usar laxante, diuréticos, moderadores de apetite e exercício físico compulsivo). Desta forma, cumpre salientar que a AN é considerada a doença mais grave comparada a BN e o TCA, com elevado nível e risco de mortalidade, pois as estatísticas mostraram que no ano de 2016 este transtorno chegou em torno de 8 a 15% dos casos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir desta revisão pode-se observar que a situação de adoecimento do indivíduo acaba repercutindo na família como um todo, gerando abalo e alterando a dinâmica de funcionamento familiar. Assim, pode-se afirmar que as relações familiares são de extrema importância para os pacientes com TA. De modo geral, este estudo possibilitou entender sobre o papel da família no contexto dos TA e as diferentes possibilidades de participação desses familiares, no favorecimento d algumas maneiras de pensar e agir.

Percebe-se que as relações familiares são de fato fatores determinantes no processo de intervenção do paciente com TA, entendida como útil à exploração de formas de relacionamento horizontais da rede familiar no contexto dos TA. Os familiares precisam participar e compreender o processo de intervenção terapêutica, pois conforme os estudos incluídos mostraram, a abordagem sistêmica familiar é a modalidade mais efetiva nesse processo que engloba o doente e a família.

A efetividade desta intervenção para os TA, depende das características clínicas de cada paciente, como o nível de cronicidade e comorbidades biológicas e psicossociais. Na literatura, se percebe, que há um número crescente de indivíduos acometidos por alguma dessas patologias, principalmente sujeitos que são diagnosticados por sintomas de TA relativos à imagem corporal, preocupação com a forma física e o peso, autoestima baixa, bem como sintomas de ansiedade e depressão, o que aumenta a aplicabilidade dos resultados de estudos apresentados pela literatura.

Considera-se que quando há compreensão da família, e o indivíduo possui um espaço privilegiado de escuta e fala, permitindo a exploração inusitada de construção e reconstrução de significados alternativos, isso pode enriquecer o horizonte interpretativo de cada participante. Na medida em que as dificuldades são compartilhadas, formam-se redes que possibilitam outros caminhos para construir o apoio social e novas maneiras de lidar com as adversidades.

Para pesquisas futuras, é importante disseminar o conhecimento no que se refere ao desgaste da família após diagnóstico do paciente com TA, apontando os indicadores de riscos, os problemas encontrados pela família nuclear, levando em conta, de que forma pode influenciar o relacionamento do paciente com cada integrante familiar. Desta forma, considera-se que são necessários novos estudos que analisem a relação paciente- família.

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Felipe Dias
  • Felipe Dias Psicólogo
  • Graduação em Psicologia - Formação Psicólogo pelo Centro Universitário Faculdade da Serra Gaúcha. Psicólogo Clínico em consultório particular. Psicólogo Voluntário do Juizado da Violência Doméstica -...

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